A Verdade Sobre Deus

A Verdade Sobre Deus

A seguir um excerto do livro A Arte da Libertação de Krishnamurti:

“A crença em Deus sempre foi poderoso incentivo a viver melhor. Por que negar Deus? Por que não procurar reavivar a fé do homem na ideia de Deus?

Seria insensato negar Deus. Só o homem que não conhece a realidade emprega palavras destituídas de significação. O homem que diz que sabe, não sabe; o homem que experimenta a realidade, momento por momento, não tem meios de comunicar essa realidade. Examinemos esta questão.

Os homens que lançaram a bomba atômica sobre Hiroshima disseram que Deus estava com eles; os que voavam da Inglaterra para destruir a Alemanha, diziam que Deus era seu co-piloto. Os Hitlers, os Churchills, os generais, todos falam de Deus, têm imensa fé em Deus. Estão eles prestando algum serviço ao homem, dando-lhe uma vida melhor?

Os que dizem crer em Deus devastaram a metade do mundo, e o mundo está cheio de misérias. Por causa da intolerância religiosa, temos separações das pessoas em crentes e não-crentes, separações que conduzem a guerras religiosas. O que isso indica é que tendes uma mentalidade extraordinariamente política. E o capitalista tem sua gorda conta-corrente no banco, o coração insensível e a mente vazia. Não riais. Não riais, porque fazeis exatamente a mesma coisa. Os que têm o coração vazio também falam de Deus.

A crença em Deus será “um poderoso incentivo a viver melhor”?

Por que precisais de incentivo para viver melhor? O vosso incentivo, certamente, deve ser o vosso próprio desejo de viver com pureza e simplicidade, não achais? Se desejais um incentivo, não vos interessa tornar a vida possível para todos, só vos interessa o vosso incentivo, que é diferente do meu — e vamos brigar por causa dos nossos incentivos. Mas se vivemos felizes, todos juntos, não porque cremos em Deus, mas porque somos entes humanos, possuiremos então em comum todos os meios de produção, a fim de produzirmos para todos as coisas necessárias.

Por falta de inteligência, aceitamos a ideia de uma superinteligência, chamada “Deus”; mas esse Deus, essa superinteligência, não vai dar-nos uma vida melhor. O que leva a uma vida melhor é a inteligência; e não pode haver inteligência se há crença, se há divisões de classe, se os meios de produção se acham nas mãos de uns poucos, se há nacionalidades isoladas e governos soberanos. Tudo isso, evidentemente, denota falta de inteligência, e é essa falta de inteligência que está impedindo uma vida melhor, e não a falta de crença em Deus.

Que significa “Deus”?

O outro ponto, agora, é este; que significa “Deus”? — Em primeiro lugar, a palavra não é Deus, a palavra não é a coisa. Quando pronunciais a palavra “Deus”, isso não é Deus. Quando repetis essa palavra, ela, naturalmente, produz uma certa sensação, uma reação agradável. Ou, se dizeis que não credes em Deus, esta negação tem também um significado psicológico. Isto é, a palavra “Deus” gera em vós uma reação nervosa, que é também emocional e intelectual, conforme o vosso condicionamento; mas essas reações, evidentemente, não são Deus.

Como, então, achar a verdade?

Não a achareis no isolamento, na renúncia à vida. Para achar a verdade, a mente precisa estar livre da reação do passado; porque a verdade não pode ser vista quando a mente está fixada, — ela tem de ver de maneira nova, momento por momento. A mente que é produto da memória, do tempo, não pode acompanhar a verdade. Para que se torne visível a realidade, o processo de pensamento tem de findar. Todo pensamento é produto do tempo, resultado de ontem; e a mente que está aprisionada na esfera do tempo não pode perceber algo que está além dela própria. O que ela percebe está sempre dentro da esfera do tempo, e o que pertence ao tempo não é a realidade. A realidade só pode existir quando a mente, que é produto do tempo, deixa de existir; há então o experimentar daquela realidade que não é fictícia, que não é auto- hipnose. Só se extingue o processo de pensamento quando compreendeis a vós mesmo; e podeis compreender a vós mesmo, não no retraimento à vida, mas tão-somente nas vossas relações com esposa, filhos, mãe, vizinho.

A realidade, portanto, não está distante, a regeneração não depende do tempo. A regeneração, essa revolução interior portadora de esclarecimento, só se concretiza ao perceberdes o que é. Ela não exige tempo, exige compreensão, exige atenção lúcida. — Só quando a mente está tranquila vem a regeneração. A experiência da realidade não é questão de crença; quem crê nela, não a conhece, e quem fala a seu respeito está apenas dizendo palavras. Palavras não são experiência, não são a realidade. A realidade é imensurável, não pode ser ensinada com palavras floridas, assim como a vida não pode ser encerrada dentro das muralhas da posse. Só quando a mente é livre, vem a criação.”

Excerto: KRISHNAMURTI, Jiddu. A Arte da Libertação. Tradução de Hugo Veloso, Ed. Ediouro: ?, gn.

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