Uni-Duni-Tê e o escolhido foi: todo mundo!

Uni-Duni-Tê e o escolhido foi: todo mundo!

Na busca pelo autoconhecimento a individualidade é cada vez mais agraciada e isso vem trazendo um dilema social: as pessoas estão tão diferentes que ninguém mais é parecido. Estão tão diferentes umas das outras que elas não conseguem mais se relacionar. Este não é um texto sobre autoconhecimento (este é), mas sobre as consequências da individualização sem conexão.

Na minha infância as diferenças de costumes e cultura entre os grupos de amigos eram observadas em leves nuances entre escolas ou bairros diferentes. Basicamente todos conheciam as mesmas brincadeiras e tinham interesses parecidos e os grupos se repetiam.

Haviam as meninas que gostavam mais de se arrumar e as meninas que gostavam de ser mais molecas, tinham os meninos que se aproximavam mais das meninas e outros que só estavam no meio dos outros meninos e faziam bagunça. Também haviam os isolados, meninos ou meninas que não se encaixavam muito nos grupos e que de tempos em tempos alternavam entre um e outro ou permaneciam “na sua”.

Não havia muita novidade, todos tinham acesso à assuntos semelhantes. Em cada etapa da vida havia certa expectativa do que se esperava que um indivíduo soubesse e poucas variáveis dos possíveis interesses.

Com os meios digitais, o acesso à informação, tanto no sentido dos noticiários quanto no sentido de busca pelo conhecimento e entretenimento, ficou cada vez mais individual. Vemos tantos conjuntos complexos de interesses quanto existem seres humanos. O apanhado da vivência cultural ficou extremamente individualizado, ainda que estudando na mesma escola e morando no mesmo bairro é raro ver pessoas realmente semelhantes.

Cada um se direciona àquilo que lhe faz bem ou o que lhe chama a atenção em momentos tão especiais quanto suas experiências. Mesmo que duas pessoas se interessem pelo mesmo assunto, a forma com que cada uma busca esse conhecimento pode ser absurdamente diferente. Cada um tem o seu jeito. Tudo é único. Todos são os “escolhidos”, todos são tão diferentes.

Por outro lado, todos estão tão perto, a um clique, a um toque de distância, mas tão, tão longe. É muito difícil ver um grupo de pessoas que compartilha dos mesmos princípios éticos e morais. E isso é a base de união entre as pessoas, aquilo que está no cerne, que motiva suas escolhas e influencia suas decisões/pensamentos.

Como em nível profundo ninguém se sente tão parecido com mais ninguém, as concessões acabam surgindo, deixa-se de lado algumas divergências que não são tão chocantes e busca-se conviver com inúmeros grupos de pessoas, em que cada grupo uma semelhança é destacada.

Tem o grupo do esporte. Tem o grupo do trabalho. O grupo da família. O grupo da vizinhança. Aquele grupo que você se encontra pra falar de coisas boas. O outro que é pra falar de coisas ruins. O grupo de criatividade. O grupo de atividade. O grupo das mídias sociais, que você quase nunca os vê pessoalmente ou então os grupos que as pessoas nem sabem que você existe e se identifica com elas.

E assim tudo virou uma várzea. Ninguém pertence a uma única tribo mais, estão todos no nível da sobrevivência, aceitando as diversidades que antes não seriam toleradas e buscando as semelhanças, que nem são tão parecidas assim, tudo para se ter um pequeno senso de pertencimento.

É praticamente impossível ver um grupo em que os princípios e os interesses são os mesmos. E isso nos torna a sociedade mais mascarada de todas. A individualidade nunca foi tão real, pois cada um é um contexto bem específico de experiências e afinidades, mas nunca foi tão atacada, pois nós mesmos estamos abafando o que somos para pertencer.

Viramos natos poliglotas, em cada grupo temos gírias, jeito de falar e até palavras que usamos com mais frequência e que nada disso se encaixaria no grupo que encontraremos a seguir. Somos camaleões sociais. Talvez bichos sociopatas. Somos eremitas, pois fugimos dos contextos sociais que não nos sentimos encaixados e somos nômades, mudamos constantemente o hálito social buscando outro que tenhamos mais “coisas em comum”.

Quanto maior o número dessas “coisas em comum” pertencemos por mais tempo. Tão logo nos interessamos por algo um pouco diferente já não nos sentimos bem ali ou somos afastados pelos que se sentem incomodados com nosso “jeito”. Ou então quando alguém começa a ficar “diferente”, ou ele sai ou buscamos um jeito dele “pedir pra sair”.

É bem isso o que vivemos. Um tal de apego à imagem doentio, porque está ligado ao medo da rejeição da forma mais direta possível, pois se você não se encaixar, sua saída do grupo vai ser facilmente arranjada.

Nem a família é um porto tão seguro assim, pois cada um tem a sua própria fantasia do que significa um relacionamento familiar e, no fundo, quase ninguém tem os mesmos interesses e são pessoas tão diferentes que forçar um convívio é de fato torturante. Por mais que família seja um princípio importante pra muitas pessoas, o significado disso para cada uma delas representa as mais diversas formas de se interpretar. Onde há interpretação há desentendimento.

Como viver numa sociedade de “escolhidos”? Como aceitar que o conjunto de interesses e de vivências de cada pessoa realmente o transformou em algo único? Como respeitar a individualidade alheia sem se sentir atacado? Como aceitar sua própria individualidade, como sendo alguém único e isso talvez signifique que você não irá encontrar mais ninguém parecido com você? Como viver junto, mas separado? E como viver sozinho, mas acompanhado?

Acho que as respostas devemos desvendar juntos, não é?! Mas deixo essas palavras para reflexão: essência/conexão.

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Reverência ao Ego

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