Reverência ao Ego

Reverência ao Ego

Ao longo da busca pelo significado de ser, me deparei incontáveis vezes com expressões como: “deixe seu ego de lado”, “morte ao ego”, “ignore o ego e seu verdadeiro-eu despertará”.

Aplicando o conceito “aberto a tudo e preso a nada”, venho acolhendo essas afirmações, mas ponderando que elas representam coisas diferentes para pessoas diferentes e que seria um absurdo crer que uma mera síntese em palavras possa representar a mesma verdade para todos.

Aqui, transmito o que assimilei dessas afirmações e o que faz realmente sentido para mim.

Mente, ego, individualidade, identidade, consciência… São palavras de sentido aberto, sendo que a linguagem e a própria interpretação da linguagem podem gerar graves distorções ao sentido originário e certamente o entendimento desses conceitos é tão múltiplo quanto o número de pessoas que desejam os compreender. Bem por isso, diversos autores se acautelam em utilizar sinonímias e exemplos que permitam a correlação e a analogia. Não farei diferente, preciso distinguir o que é que estou efetivamente dizendo.

Tenho por mente, os processos gerados pela atividade senciente – que recebe as impressões, o “aspecto onda” (que falarei mais à frente) – e intelectual – que raciocina, que trabalha nessas informações, o “aspecto partícula” (que também abordarei à diante).

É indiferente para este texto se tais processos ocorrem internamente (dentro do órgão corpóreo, cérebro) ou externamente (adjacente à região craniana, como se cérebro fosse um “disco de vinil” e a mente fosse a “agulha leitora do disco”), ou ainda num misto entre os dois (considerando a glândula pineal como uma antena que recebe/envia dados). Creio que ainda não existam informações suficientemente tangíveis que me impulsionem a ter uma opinião firme a respeito disso, mas me mantenho convicta na noção de que mente é um aspecto não-material.

Numa abordagem simplista, não-matéria é tudo aquilo o que não é matéria. Pense na luz, se absolutamente tudo fosse iluminado, não seria possível distinguir coisa alguma, tudo seria luz. É a ausência da luz (não-luz) em alguns pontos, que possibilita distinguir os objetos. Portanto, são as sombras que desenham as formas.

A mesma correlação existe com o som/silêncio. Silêncio é a ausência de som. Se não houvesse o “não-som”, não conseguiríamos distinguir som algum, seria tudo um barulho incessante. Analogamente à “não-luz” (escuridão) e ao “não-som” (silêncio), é necessário haver espaços “vazios”, ausentes de matéria, senão o Universo seria um único objeto corpóreo, uma massa coesa. E definitivamente não é isso o que observamos.

Já numa linguagem um pouco menos simplista, utilizo o termo não-matéria, em vez de antimatériamatéria-negra ou energia-escura, propositalmente. Não há dúvida da existência dessas constituições pela ciência.

A primeira (antimatéria), pode ser medida pelos mesmos instrumentos que medem matéria, afinal, suas partículas possuem cargas opostas às partículas da matéria associada, mas possuem massa e se comportam como a matéria. A segunda (matéria-negra) também apresenta partículas que podem ser mensuradas; e a terceira (energia escura), não se consegue aferir pelos instrumentos que detectam a matéria, mas há evidências de que entre 75% e 95% de tudo o que existe no universo seja composto por matéria-negra e energia-escura.

Sabe-se que “algo” está ali, através a influência que “isso” exerce sob a matéria e essa ação pode ser atestada pelos instrumentos científicos. Se a matéria “experimenta” a influência desse “algo”, então admite-se “indícios” de sua existência, semelhante ao que ocorre com as sombras: quando contornam as formas é que são notadas. Todavia, cabe aos cientistas determinarem se esses elementos são compostos de matéria ou não e, para nossa tese apresentada, basta a ideia de “ausência de matéria”. Seja lá qual for o nome oficial dado a isso, chamaremos aqui simplesmente de não-matéria.

Superado o aspecto não-material, passemos à análise da mente. Como decorrência lógica da dualidade onda-partícula da mecânica quântica, sinto-me compelida a inferir que quando a mente atua nos processos sencientes, ela está ciente de todas as possíveis ondas (as infinitas possibilidades, que se fala); já nos processos intelectuais, a mente estaria atuando como uma única função de onda colapsada em partícula (através das descargas elétricas nos neurônios). Segure esta informação, pois continuarei estas formulações mais à frente, depois de elucidar os outros detalhes.

Precisamos analisar agora o ego, para juntarmos as peças. Tenho este conceito como sendo o codificador/identificador/distinguidor exclusivo de cada ser. Aquilo que alguns chamam de “eu”, ou “eu-menor”, ou “falso-eu”, ou indivíduo. Para mim, ego é a composição dual entre corpo+mente: a aparência física (matéria/corpo) mais o conjunto subjetivo e abstrato do ser (não-matéria/mente); a carapaça envoltória do conjunto unicamente especializado de energia vital+energia criativa. Outros chamam isso de identidade, mas por enquanto me atenho ao ego e logo mais esclareço sobre a identidade.

Indo além, vejo o ego como sendo não somente esta composição dual, mas a própria experiência material desse dueto matéria+não-matéria, pois a exteriorização do ego é compreendida pelos órgãos dos sentidos – captamos e consolidamos o ego através das impressões visuais, sonoras, olfativas, de tato e paladar – ou seja, o ego é apenas experienciado na realidade material.

A partir disso, faço um parênteses a esta ideia, que me parece pertinente: como a experiência material dos seres ocorre de maneira ligeiramente diferente entre os reinos animal, vegetal e mineral, reservo a expressão ser para todos os reinos, como uma regra geral do egoente ou entidade, para os reinos sencientes; e indivíduo, para os humanos. Por isso, as palavras ego, ser, enteentidade e indivíduo, acabam tendo o mesmo propósito terminológico, ao representar a experiência material do ser humano.

Pronto, agora podemos unir as peças. Sendo o ego a experiência material do ser, consciência é a experiência não-material do indivíduo.

Vou explicar, a consciência existe em um “mundo” questionavelmente desconhecido, o da não-matéria. Não creio que esse “mundo” seja representado por outra realidade ou dimensão, afinal esses conceitos estão intrinsecamente ligados à matéria, por isso, vou chamar aqui esses “mundos” (material e não material) de espectrosImpossível de se observar, a não-matéria só é acessada através da consciência, o que alguns chamam de “essência verdadeira”, “verdadeiro-eu”, “eu-maior”.  Com isso, a mente é algo não-material, mas ela trabalha nos dois espectros: na matéria e na não-matéria.

Para entrar em contato com a consciência, o ego se transcende/ilumina/liberta do espectro material e acessa o espectro da não-matéria. Isso ocorre quando a mente se desvencilha dos processos intelectuais, inerentes ao cérebro (raciocínio/pensamento/lembrança) e permeia uma conexão direta com a consciência, permitindo que ela flua livremente.

O acesso aos espectros matéria/não-matéria é oscilante e alternante, e a “ponte” entre elas é feita pela mente. Na verdade, o termo “ponte” não esclarece propriamente o efeito da mente nesse revezamento, pois ele é, de fato, um salto quântico entre um espectro e outro, ora aparece em um espectro, ora em outro, exatamente como qualquer agente quanticamente considerado: ora onda, ora partícula. Fizemos a animação abaixo para tentar demonstrar como seriam nossas luzes da mente acendendo e apagando:

Quando se entra em contato com a consciência, inúmeras ondas (tendências de possibilidades) estão entrelaçadas e em fluxo. É por isso que muitas pessoas associam sensações prazerosas à iluminação, sensação de paz e completude, pois no espectro não-material, todas as possibilidades ocorrem simultaneamente. Quando se fixa em um pensamento, as ondas (tendências) se afunilam para um único foco (escolha), é como um “gatilho”, que ativa os processos intelectuais.

Dificilmente se verifica um ponto em que consciência e intelecto coexistem, sem que um prevaleça sobre o outro. É como “luzes alternadas”, enquanto uma está acesa, a outra apagada, e vice-versa. Porém o estado consciente é inerente ao ser humano, independe de religião, credo, fé, cultura, estados místicos ou alucinogênicos.

Para desmitificar a iluminação, quando se experimenta aqueles momentos “eureka”, uma ideia simplesmente flui, por canais que a mente não estava acostumada a conceber. Essa é uma habilidade natural da mente, só que muitas explicações mais confundem do que guiam. E o pior, muitas crenças desencaminham ou deturpam o real sentido da iluminação, seja por incompreensão, por interpretação equivocada da linguagem, por desvio de entendimento, por falta de clareza de consciência, e até por adulteração intencional.

Sendo um estado natural da mente (o acesso ao espectro não-material) com a prática, mente e consciência tornam-se cada vez mais próximas e os processos intelectuais acabam se tornando secundários e instrumentais, pois o acesso ao espectro da não-matéria provém ao indivíduo energia criativa e entusiasmo renováveis, enquanto a mente em contato com o espectro material, fica limitada às experiências armazenadas na memória e nos processos neurológicos.

Agora podemos esclarecer o ponto que ficou de fora até agora, a identidade. Compreendo a identidade como um conjunto de características do ego que representa um determinado momentum, como uma fotografia do ego: o indivíduo pode ter uma identidade específica (estática), por certo período, mas o ego é indefinido/mutável/polimorfo (dinâmico), como um filme.

Portanto, iluminação é uma exoneração ou um “deixar de lado temporariamente” ou um “apagar uma luz”, para que outra luz se acenda, é um “viver no filme, em vez de viver na fotografia”.

Mas as fotografias são maravilhosas! A existência material do ego nos permite sentir singularmente. Cada ser é uma consciência experimentando algo exclusivo, desenhado/moldado/criado justamente para aquele indivíduo, pois cada ser tem uma composição do dueto matéria/não-matéria único. Uma verdadeira composição artística. A combinação singular, exclusiva entre energia vital e energia criativa, vista por uma perspectiva única. E querem matar o ego?

Ao passo que penso tudo isso, quando penso na teoria de que o ego deve “morrer” para que o eu-verdadeiro surja, é inevitável que eu fique desapontada. Não creio que seja esse o caso. A iluminação não é a superação do ego, como se o ego fosse algo ruim. Afinal, os mecanismos do dueto matéria/não-matéria permitiram ao ser humano sua sobrevivência, adaptação e evolução. Em uma análise mais profunda, acredito que a existência do ego é exatamente o que permite à consciência experienciar o espectro material, consequentemente, não haveria sentido algum em existir a matéria se ela não pudesse ser experenciada por seu próprio prisma.

É perfeitamente aceitável a ideia de que devemos ter ciência de que nossa existência é muito mais do que uma fotografia, ela é um fluxo de fotografias, um filme. O apego à imagem, à forma, ao ego, como sendo a única coisa que existe é uma ilusão. Sim, o ego é único, mas não é a única coisa que existe. Além da matéria, há tudo o que não é matéria, há a consciência, há uma ligação intrínseca a todos os seres, e todos são a mesma coisa, na essência primordial não-material, que é a chamada “consciência-una.

Assim, creio que a verdadeira iluminação é o despertar da consciência; é o permitir que a “luz” da consciência flua pelo ego, pela mente liberta, a qual apaga a “luz” dos pensamentos e a acende, conscientemente; é o viver a sua existência material em sua máxima potência. Isso significa: viver presente, consciente de tudo o que se passa dentro e fora de você, o tal famoso “caminho do meio” – o controle da mente.

Por outro lado, os extremos seriam: a) viver intensamente na matéria, acreditando que seus pensamentos são tudo o que você é, viver preso em suas memórias (história pessoal, lembranças, dramas, medos, valores) ou expetativas (projeção do futuro, insatisfação com o presente, satisfação de desejos, imposições aos outros), ou b) viver indiferente à matéria e mergulhado na não-matéria, e isso seria o mesmo que voltar à consciência-una e negar a sua existência individual.

Uma mente plena, altera confortavelmente o modo de operação nos espectros, é como um maestro que dita a sinfonia. Dessa forma, não vejo porquê em abafar o ego, se ele pode ser considerado um instrumento tão importante quanto o seu companheiro, a consciência. Devemos reverenciar o ego da mesma forma que contemplamos a consciência, como os japoneses reverenciam uns aos outros, ou como se diz em sânscrito “namastê”; como sinal de profundo respeito e admiração, reconhecendo que a singularidade dos egos é um “milagre” da energia criativa do universo, e que, sem o ego, haveria somente a consciência-una, primordial.

Seja consciente e, por isso, receba tudo sem julgamentos – acolha – mas, ao trazer para dentro de seus processos intelectuais, seja crítico, questione tudo o que está dentro e fora de você, confrontando com aquilo que flui em sua mente liberta – integre – e combine aquilo que a sua visão única de mundo pode re-conhecer, relacionar ou apresentar de uma forma diferente, e transmita. Dessa forma, acredito que todos podemos iluminar nossos egos, vivendo na máxima potência do nosso ser.

Conheça sua mente e viva em plenitude.

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